quarta-feira, 26 de julho de 2017

In gratia cantantes

Meu olhar pousa no seu canto
enquanto seus dedos dedilham
aquelas cordas dissonantes.
Eu, desde sempre e muito antes
até mesmo flutuando em corda
bamba...
Ficaria ali eternamente
ouvindo as dolentes incertezas
do seu samba.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

É pau, é cupim, é rap, camarada...

Ainda tenho braços para levantar bandeiras, pés para chutar granadas,
mãos firmes à empunhar flores ou adagas. Tenho voz que entoa hinos
ou palavras de ordem, Tenho susto, medo, sorte. Mas coragem não falha,
Nem a memória! Sou navalha que corta carne, chá de losna que amarga.
Flor de lírio, também sou! Se for pra ir para o campo, não fujo da raia!
Me visto de luto, de branco ou de armadura. Rezo para todos os santos,
enterro bem fundo os meus prantos,cantando acalanto ou tocando alfaia.
Ainda tenho asas para sonhar, aditivos, delírios, pão, poesia e devaneios.
Tenho armas que também são de Jorge, Tenho lápis e lápso e lápis lazuli.
Meus inimigos não me alcançarão, nem as suas mãos hão de me tocar.
Tenho fé, tenho vontade de vomitar, tenho ânsia de liberdade e justiça,
Tenho tanta preguiça de responder aos comentários idiotas no  facebook...
Tenho pena de pavão e krishna, mas não consigo perdoar certos pecados.
Estou constantemente dividido entre a paz e a espada. Sou yin e sou yang.
Quando vejo cabeças de papel marcharem em blocos feito zumbis raivosos,
destruindo barracas e sonhos, atirando balas de borrachas nos olhos atônitos
de meninos e meninas que ainda contam histórias e dançam suas cirandas...
Nessa hora sinto gosto de sangue, me lembro de um antigo bangue bangue,
onde os bandidos morrem crivados de balas e as bocas cheias de formigas,
no final! Porque no final o bem sempre há de vencer o mal. Como diz um
brother meu...







domingo, 7 de fevereiro de 2016

Explodindo torpedos

Esse torpedo que me atravessa a garganta
cala meu canto, tira de mim a voz, o verbo,
a palavra, a sílaba, o fôlego, a saliva, o eco,
o grito, o sussurro, o balbucio, o murmúrio...
Faz de mim um rio de lágrimas, dor e medo.
Esse torpedo que me persegue, me explode!
E me lança violentamente contra o muro.
Me reduz a cinzas, me transforma em pó.
Deixando tudo esfumaçado, tudo escuro.
Até que eu sinta tanta dor no mundo...
Que resolvo virar tudo de ponta cabeça.
Misturo versos, com o pó e as cinzas,
derramo em cima água de rosas,
e batom, para dar o tom e a liga.
Amasso com muita vontade,
vou modelando, com cuidado.
Uma nova pessoa, um novo ser,
com sobras do que tinha de melhor
Com muito mais força e mais fibra.
Para explodir torpedos que se atrevam!
Todos!
Estou em estado de carnis levale
E por isso digo adeus à carne.
Que o Rio de janeiro me lave
Que o Salvador me acuda 
Olinda olhe por mim
Recife não fica assim...
Um dia eu ainda volto 
pelos braços da saudade
Hoje eu já sou quaresma
expurgando todos  pecados
pintados na minha cara
cobertos atrás da máscara
vestidos de pierrôcolombina
Então digo adeus à menina
que um dia já esteve aqui
vai chegar quarta de cinzas
e o ano ainda vai começar
É hora da gente sambar
desfilar na avenida
correr atrás de Dodô
dançar aos pés de Osmar
na beira mar da Bahia
Bahia de mãe menininha
e também de dona Canô.
Carnaval me leva, eu vou!
Carnaval me leva, eu vou!


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Lorca!

Se fossem minhas as tuas mãos
e os dedos desfolhassem a lua
faria poesias de morte e de vida
poesias minhas que seriam tuas.
Mas não são minhas tuas mãos
e as minhas longe de serem tuas
separadas por distância e tempo
ainda que a poesia torne possível
qualquer coisa, poesia é sofrimento.
Ficarei aqui, em ânsia e à deriva...
Com sua bala cravada lá no fundo,
bem no fundo da minha garganta,
como uma puta muda que canta
enquanto deixa crescer os cabelos.
ali, lambendo o suor da sua fronte
E depois seguir em frente, morrendo,
como uma  mariposa afogada no tinteiro.


E assim caminhamos...

Vastos campos das nossas guerras infindas...
Detonados, sujos, cheios de dejetos. Ali estão!
Peço trégua. Perdida nesses campos minados.
Peço trégua dessas batalhas insustentáveis, vãs.
O caminho que um dia ali esteve, já não há mais.
Sonhos que sonhamos juntos, se perderam por aí.
Estradas não serão mais percorridas, não há pés!
Caminhadores, sonhadores! Só restaram dores...
O que faremos dos dias escuros que acaso virão?
Plantaremos novas mudas, mudaremos o discurso
abriremos as fronteiras, daremos novo curso ao rio.
entraremos no cio, a fertilizar plantas, bichos, tudo!
Conteremos o grito mudo, engasgado na garganta
nos matando aos poucos como o torpedo de Lorca,
ou nos colocando à forca, ou o coração às rapinas.
Ou veremos novamente as meninas, bruxas inquiridas,
cobiçadas e queimadas nas fogueiras da inquisição.
Daremos quantos passos para trás e quantos à frente?
Quantas burcas, turbantes, xales, biquínis queimaremos
até descobrir que o xis da questão não passa por ali.
Com quantos paus faremos uma canoa, ou coisa assim?
Estaremos à deriva, sobreviveremos a possíveis dilúvios...
Daremos nós em pingo d´agua, murros em pontas de faca
ou apenas caminharemos a esmo nessa multidão, boiada...

Pedaço de alma que carrego na mala

Eu me reconheço nesses olhos entristecidos
na boca entreaberta de dentes amarelados
no gesto trêmulo da pequena mão calejada
parecendo querer algo, desesperadamente!
Qualquer coisa que por acaso tenha sobrado
Seja uma migalha, um farelo, grão ou semente.
uma pequena porção de afeto ou de açúcar
uma bala que lhe atravesse a garganta seca
um biscoito dormido, um sonho de padaria
ou quem sabe, água, ou uma pitada de sal
ou um velho jornal para descansar a nuca...
Eu não pude lhe dar nada mais que um sorriso
e umas míseras rúpias para comprar um pão.
Ficou tatuada em mim para sempre sua imagem.
Tirei um pedaço de sua alma e carrego comigo,
até hoje!

sábado, 5 de abril de 2014

Em caso de dúvida, viaje!

Quando estou meio assim.
Pisando em caco de  vidros,
soltando pólen das asas,
poeira demais nos sapatos...
Saudades dos dias idos.
Lembranças de fotos, e fatos!
Nostálgica, frágil, quebradiça...
Sou isca fácil,  para uma tal solidão.
Ensimesmada, pelos cantos da casa.
Vou tocando o dia à dia à fogo e facão!
Desbastando galhos, abrindo janelas.
Derrubando paredes, aparando arestas.
Inventando tréguas sob campo minado.
Afundando memórias, afetos e mágoas,
nas águas  revoltas do meu lago sagrado.
Compro uma passagem de ida, e viajo!





quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Reminiscências...

Me dei conta que já não tenho braços
para levantar aquelas bandeiras rôtas,
nem pernas para chutar paus e barracas.
Carrego aqui uma carcaça encharcada
de sonhos ávidos, outrora  vividos.
E vice-versa, e vícios, e versos e etc
Carrego estradas num baú de prata,
"porque prata é a luz do luar"...
Misturadas com fotos amareladas.
E ainda vocifero algumas palavras.
As mãos firmes a enfiar agulhas,
remendar panos, escrever coisas...
Uns olhos que enxergam o longe!

domingo, 26 de janeiro de 2014

Eternidade

Eu me deitaria ao seu lado com um sorriso nos lábios,
um cigarro na mão, uma taça de vinho barato...
Sob um céu estrelado. Sem falar de problemas,
preocupações, trabalho... Ou de outras coisas banais.
Eu te cobriria de beijos e sonhos, sob a luz da lua.
Ou me esgueirava no breu das  noites sem lua,
e te faria carícias, e poesias. Ou apenas ficava ali.
Quieta e silenciosa esperando a eternidade.