quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Esse silêncio...


O teu silêncio inquieto
que mais parece um grito
engasgado!
Ou uma palavra áspera,
muda, calada...
A espera de algo.
Ou um palavrão sufocado.
Esse teu silêncio...
Que fica mal acomodado
na sua boca rígida
meio triste, meio cínica,
meio se fazendo de vítima.
Esse teu silêncio
ensurdecedor!
Me agonia, me perturba.
Esse teu silêncio...
Me penetra
como o som de uma turba.
Cala esse teu silêncio!
Que eu já não aguento mais
tanta tortura.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Samba do descanso e aché.


Eu quero uma rede de proteção
Persianas, revestimento fumê
Quero me esconder de você
Quero paz! Pouca emoção
Quero me retirar desse ringue
Já me dei por vencido
Quero descanso merecido
Férias, licença, décimo terceiro...
Quero ir pro meu terreiro
Ciscar nele feito um galo
Quero fechar o meu corpo
Me benzer com dona júlia
Colocar no meu pescoço
três guias brancas e azuis
Depois voltar prá Bahia
Pra lavagem do Bonfim
Tirar as correntes de mim
me jogar no mar azul
fazer a jornada da alma
Depois com toda calma
vou pensar em seu caso...
E talvez te ligo.

domingo, 18 de novembro de 2007

Solidão no décimo oitavo andar.


Da janela de seu apartamento,
num recém construído edificio,
desses que surgem todo dia,
sem que a gente sequer perceba.
Ela fuma seu cigarro carlton,
e canta num tom de voz agudo,
um samba de letra absurda.
E ele se faz de surdo,
na outra janela ao lado.
Ela lânguida, em camisola seda.
Ele ereto, apenas com a calça do terno.
Juraram amor eterno, numa igreja
coberta de flores. Há dez anos atrás.
Hoje nem se lembram mais.
Já nem se olham nos olhos.
Nem se chamam pelos nomes.
Sequer um gesto de afeto.
Só lhes restam as prestações,
do carro novo, do imóvel...
Eles permenecem sozinhos, ímpares.
Embora sob o mesmo teto.
Até que a morte os separe.
Porque hora após hora,
a rotina lhes deteriora.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Sombra, luz e borboletas...




Eu quero dentro de mim,
tudo que puder guardar
e quero o que souber esquecer
e tudo que conseguir lembrar.
Eu quero sal e açucar,
quero tristeza e astúcia,
quero meninas fazendo tranças.
tricot, versos ... Tenerife.
Quero beijo de sapo,
de príncipe e de patife.
Quero dentro de mim,
fogo, gelo, inspiração,
devaneios, tolerância,
saudades, lembranças...
Quero sombra e luz.
E borboletas... Azuis.
Quero mágoas perdoadas,
águas roladas, pedras...
no caminho, para chuta-las.
Quero estradas e tempo.
Quero mel e quero mais!

sábado, 20 de outubro de 2007

O que houve?




Foi bom pra você?
Pra mim? Não sei...
Talvez não fosse bem
o que eu queria.
Talvez não fosse ontem,
o nosso dia.
Talvez carinho caísse bem,
meu bem!
Talvez não fosse culpa
de ninguem...
Quem sabe, a pressa?
Talvez a pressão!
Terá sido o botão,
que não desabotoou?
Ou quem sabe...
Foi apenas
o nosso amor,
que era pouco
e se acabou?

Poesia qualquer...


Eu sou a poesia debochada,
descarada e mal falada.
Subverto todas as regras.
Cuspo no chão... Falo alto,
falo palavrão!
Corro nua no asfalto,
avanço o sinal fechado,
ando na contramão!
Sou a poesia analfabeta,
ante estética, ante ética.
Já matei tanta aula...
Pra curtir o mar.
Passo o dia inteiro a delirar.
Sou puro ópio, puro ócio!
Sonhos, devaneios, fantasias...
Solidão!
Sou lunática, sou telúrica.
Sou caos e criação.
Não uso gravata, não sou elegante.
Sou completamente instigante.
E prometo incinerar seu coração.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Gato pardo


Eu sou um gato no escuro.

Andando em telhado de vidro,

vagando pelas esquinas.

Subindo em tudo que é muro...

Eu sou um gato perdido.

Um gato escaldado!

Eu sou um gato de rua.

De noite também eu sou pardo.

Cansei de ter sete vidas!

Cansei de chance nenhuma.

Cansei de latas, de lixo...

De bares, passeios, botecos.

Miando quase em sussurros.

Cansei de vagar pelos becos.

De cruzar estradas, de passar

por baixo de escadas...

Cansei de ser o negro gato,

de arrepiar! E dessa droga de vida,

que é mesmo de amargar...

E também já cansei dessa estória,

de churrasquinho e tamborim.

Portanto, se cansem, também de mim!

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

ganhe um brinde... na tampinha...

O casal faz pose pra foto, e vende latinhas de sonhos com açucar.
As pessoas desejam a felicidade que estampam cartazes nas ruas,
desejam o doce do açucar nas suas vidas,nas suas veias, nas suas mesas... Desejam a beleza padronizada e o glamour que envolvem os modelos das campanhas de refrigerantes, cervejas, cigarros... As pessoas desejam ser sexys. As pessoas desejam ilusões... Libido...
As pessoas desejam, desejam, desejam.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

el mundo


el mundo, upload feito originalmente por faz-me rir.

É esse mundão que eu queria poder te oferecer na bandeja,
e de sobremesa o sol, a lua e as estrelas...
Você merece tudo, você merece uma vida longa, linda, rica...
Rica de sensações, experimentações, afetos e amores intensos!
Você é linda... E sabe viver... E vai viver melhor ainda!
Te adoro é muito pouco!

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Emergir.


Hoje o que me seduz é o poço, o fosso, a fossa.
Hoje não quero samba, nem bossa nova...
Quero dor de verdade, quero choro rasgado,
sem dó nem piedade!
Hoje o que me seduz é o gosto amargo da angústia,
frio , seco, cinza, rascante... Apertando a garganta,
com a fúria de um amante!
Hoje eu quero um tango, um fado. Uma taça de gim,
com veneno! Não quero sofrer pequeno.
Hoje eu quero tristeza imensa. Quero dor!
Quero mergulhar até o fundo!
Quero cuspir sangue e areia,
Não quero ópio na veia.
Quero sentir tudo!
Hoje eu quero culpa, quero culpa!
hoje também quero catarse!

Sutis diferenças



Quando você quer carnaval,
prefiro fazer retiro.
Se você quer ficar só,
eu sou de muitos amigos,
Você toma leite quente,
eu tô afim de um porre.
Você pede um chá de boldo,
eu tenho à mão um engov...
Nós somos assim...
Dois laços desamarrados.
Você usa leite de rosas,
eu uso alma de flores.
Você curte Mad Max,
eu, Entre dois amores.
Se você escuta reggae,
estou afim de um samba,
Quando você vai pra farra,
prefiro ficar na cama.
Nós somos assim...
Dois laços desamarrados.
Um que ama e suporta,
outro que suporta e ama!

Relógios esquecidos...



Pulseiras, argolas, correntes, pingentes..
Pássaros de pedra-sabão...
Borboletas, madrepérolas.
Ficam-se os anéis, vão-se as mãos!
Voltas que o mundo deu! Voltas de prata,
voltas de ouro, besouro!
Quinquilharias embaraçadas,
relógios quebrados, tesouros!
Tesouros... Que não voltam mais.
Então não existem, de fato.
Minha vida portanto,
é um imaginário porta-jóias,enferrujado!
E até a bailarina que fazia piruetas,
está com o joelho quebrado!

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Tudo contém tudo


O rio contém a nuvem, a nuvem contém a chuva,
a chuva contém o rio... Eu contemplo tudo, e rio.

Divorcio!


Tu! Ser esquálido, estúpido, vil.
És um gêiser a me queimar todo dia.
Gatuno, larápio! Rouba minh'alma,
e como garrote, paraliza
meu sangue nas veias.
Te quero agora!
Genuflexo a mim.
Confessando todos os pecados
praticados e os que estão por vir.
Gula, inveja, avareza,
vício, adultério, traição,
crueldade, safadeza!
Inadimplência, discórdia,
mentira, ingratidão,
insignificancia, insalubridade,
insatisfação!
Incidioso! Já nem ao Aurélio
eu recoro mais.
Não imaginas a intensidade
da minha ira...
Meu coração glacial se manifesta!
Intrépido lhe envia:
Irrevogavelmente ADEUS!

O que será amanhã?



Esse nosso mundo tão veloz. Tão plugado... Conectado.Cheio de modernidades e riquezas abstratas.
Aparelhos, mecanismos. Tanta tecnologia!Tão aparentemente acessível... Será possível
atravessarmos outros séculos sem nos reduzirmosa um dos dois lados do binômio: Mercado/mercadoria?

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Tempo... Tempo.


O tempo devora meus sonhos
apaga lembranças
que ainda guardo.
E joga em cima de mim,
pedaços de relógios quebrados.
O tempo...
Com suas mãos compridas...
Me segura a garganta.
Me aperta em seus longos dedos.
Eu... prossigo! Embora com medo.
Procurando o caminho da eternidade.
Percorrendo o caminho do desapego

Vem...



Joga no mar tuas mágoas.
E amarra bem amarrado,
todos os teus dasatinos.
Ancore o teu destino,
Aqui, perto de mim!

Paixão



A minha paixão,
tem infinita densidade.
Altura, profundidade,
largura, tempo, calor,
energia e explosão!
A minha paixão,
tem tudo isso
e não se mede.
É como sangue,
correndo nas artérias.
É conversão de energia
em matéria. E vice-versa.
É universo em expansão!
É o bang! É o bangue-bangue.
É o caos e a criação.
A minha paixão
é como uma contração.
Que delicadamente
esmigalha tudo
até virar suco.
É passado, presente e futuro,
existindo simultaneamente.
É o dia inteiro, absolutamente!
Até a vigésima quinta hora!
A minha paixão
é ontem! É agora!
É tridimensional... Abstrata.
Anormal, desenfreada!
É apego e desapego.
É vício e solidão.
É ascensão absoluta
e degradação violenta.
A minha paixão
não se aguenta!
Não tem vergonha
não tem limite.
A minha paixão
é uma bronquite.
Que me destrói,
me rói o peito
e não tem xarope
nesse mundo que de jeito!
A minha paixão
é minha pior qualidade,
e é meu melhor defeito!

sábado, 29 de setembro de 2007

Good luck!


Eu te chamo de menino, tu me chamas de felina.
Eu te quero agora, inteiro! Tu, metade em fevereiro,
(outra parte, só Deus sabe!)
Eu te chamo de saudade, tu passas o carro por cima.
Apelido: solidão! Tu brincas com minhas rimas.
Eu puxo os teus cabelos, tu tranças as linhas do tempo.
Eu bebo do teu veneno, tu sorri da minha sina.
Eu fico de mal contigo, tu fazes as pases com Deus.
Eu pego tudo que é meu e vou-me embora pra sempre.
Nem quero que tu te lembres, que um dia estive aqui.
Te desejo "good luck baby"! Fecha a porta quando eu sair!

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Sozinha, sozinha!



Hoje eu quero ficar só. Só quero eu mesma como companhia.
Não quero ninguém, nem pra dar bom dia! Não quero ter que pedir:
Licença, por favor, obrigada! Ninguém que acenda meu cigarro,
que traga algum recado, ou abra a porta do carro... Não quero ninguém,
por perto, nem ao largo, nem ao longe. Que não me perguntem nada!
Nem como, nem onde. Não me cumprimentem! Não falem de hora marcada.
Nem me olhem com cumplicidade! Quero estar só! Quero andar só...
Pela cidade. Não quero cara metade. Não quero ser feliz!
Só enxergo meu umbigo. Nem um palmo além do nariz!
Vá ver se eu tô lá na esquina... Vá!

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Olhodepeixe


Faço pose pro seu olho de peixe... Morto!
E você nem click!

Anos de vida...


Eu queria ter lhe dado de presente, um belo futuro, ou uma bússola
que guiasse seu percurso, um livro que lhe desse um grande insight,
ou um anjo da guarda, pra lhe guardar pela vida inteira.
Um objeto qualquer que fosse... Que algo especial significasse.
Uma mudança, um novo rumo, uma descoberta, talvez...
Uma guinada! Ou nada disso, mas outra coisa ainda mais rara.
Eu queria ter lhe dado de presente um passado do qual você pudesse
se orgulhar. Recordações em slides coloridos! Uma viagem inesquecível!
Um amuleto, um carro, um animal de estimação... Uma canção!
Ah! Mas não sou Deus, não sou rica, nem nada,  nem poeta...
E o presente que eu posso lhe dar é o meu coração,
com a porta eternamente aberta!

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Breve outono



...Porque se eu permitir, que tu entres assim....
E desmantele minha vida, e desarrume minhas coisas....
Já sei que estarei perdida. Embriagada de vinho barato.
Viciada em sua ousadia pós adolescente.
Por isso... Decididamente!
Te deixo em paz!

Nudez



Um pano cobre o corpo.
O rosto... seios, púbis.
Detrás do pano
um corpo nú.
Não um ser nú.
Um ser não se despe
tão facilmente....
Continua vestido,
embora despido.
Tira a roupa,
Mas a máscara...
Está fadada
a ser usada,
eternamente

S.O.S.


O mundo perdeu o fio da meada,
mas continua afiada a navalha
que corta todo dia a nossa carne!
O cheiro dos sonhos mortos,
os rostos anônimos apagados à borracha!
Cabeças cortadas, caçadas...
Capacetes e turbantes espalhados pelo chão.
São inimigos iguais, em busca de outra farsa.
Cada qual querendo o seu quinhão!
Enquanto isso...
Crianças morrem de bala, medo e fome.
E seus pais encontram vida eterna.
Nos campos da santa guerra...
Nos equívocos da guerra santa

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Meu sonho com Van Gogh


Essa noite eu sonhei que estava num jardim de girassóis,
e lavava as camisas brancas de Van Gogh...
Esfregava-as com tanta força!
Das minhas mãos saia sangue.
Van Gogh olhava... Se vangloriava em silencio.
E sorrindo pintava estrelas em mim.
E pincelava meu sonho de azul anil.

Quando tudo que importa é sono...


São três horas da manhã. Oh! amarga noite condenada! Allen Ginsberg dorme ao meu lado calado...
Eu não posso fazer nada. Já ofereci ao sono minha cabeça, desprovida de fantasias e devaneios,
mas ele não veio busca-la.
Pensamentos confusos... sonolentos, batem a minha porta. Rejeito-os, um por um. O frasco de"réscue"
me seduz, acendo a luz! Mas continuo no escuro. Tateio o criado-mudo. Tenho "gasolina" em minhas mãos.
Gregory Corso também veio dormir comigo. "No portal de uma ultrimagem improvável.... Entre paredes de
um quarto sem requintes de arrumação".

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Nascia uma flor...


Era primavera de oitenta e dois, doze de outubro... Nascia de mim uma flor.
Meia noite de lua cheia, e uma flor nascia de mim. Assim... Sem medo. Sem dor...
Era uma flor tão branquinha... Com um cheiro que vinha do céu. Um cheiro do outro mundo!
Eu respirava fundo e baixinho agradecia a Deus: Meu Deus! Nem sei se mereço, mas pra essa flor,
eu Lhe peço: O melhor adubo que houver, água pura a vida inteira. Terra fértil, luz do sol...
Me faça também jardineira, pra cuida-la com carinho, podando somente os espinhos, sem machucar
os seus galhos. Regando-a todos os dias, pra que ela cresça forte, linda e sadia. E desabroche plena.
E as suas sementes floresçam pelos canteiros da eternidade!

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

gasolina azul



Desde o dia em que te conheci.
Com toda sua loucura e audácia.
Vi quão limitada sou...
Como os velhos poetas que recuam.
Em ninguém, até hoje, despejei
uma torrente de relógios esquecidos.
E nenhuma criança veio falar comigo,
balançando o oceano numa varinha.
Mas meu pai... Esse sim....
Devorou os meus aniversários.
Ah! nunca me vesti com as
explendidas botas do Sudão...
Nem beijei as Fátimas cantantes
do cafetão de Adem!
Mas agora sei, mas agora sei porque,
as minhas mãos estão em chamas!

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Pela metade





Eu sou tudo pela metade.
Meio razão, meio sensibilidade,
meio tímida, meio lúdica,
meio esotérica, meio às avessas,
meio às pressas, meio atrazada,
meio desligada, meio telúrica.
Meio calada, meio nas nuvens...
meio avestruz, meio maluca.
Eu sou toda pela metade.
Meio arredia, meio evasiva,
meio à vontade.
Meio assim, meio zen...
Meio na contramão, meio na solidão,
meio correndo atrás.
Meio insatisfeita, meio inquieta,
Meio inacabada, meio indefesa,
meio incompleta!

Mona Lisa Van Pira

Você chegou toda pop, um ar de top...
Meio Mick Jagger, meio Jerry Hall.
Flutuando como um anjo star!
Sobre plataforma verniz laranja,
desliza lânguida, impávida.
Esbanja charme!
Um look andrógino. Algo Andy Warhol,
esquisitamente sedutor. Enigmático!
Retoca a maquiagem, faz pose pra foto,
assobia uma música de Otto,
rodopia como uma miragem.
Faz caras e bocas, e pausa.
Sorri meio Monalisa, cita Bukowski,
imita Basquiat!
Vai pro banheiro fumar.
Volta ainda mais linda, e doidona.
Monta ali mesmo, uma instalação.
Incorpora Bridget Fonda,
e detona uma bomba,
bem na porta do meu coração!

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Princípio fundamental


Eu não sei o que é o binômio de Newton,
nem o triângulo de Pascal.
Coeficientes, anagramas, etc e tal...
Mas quero você, sem óculos,
fazendo cálculos absurdos.
Potencia crescente, equação inexata!
Algarismo distinto...
Uma análise combinatória.
Aqui em meu tatame.

domingo, 9 de setembro de 2007

Porrada


Somos tão pequenos, tão sozinhos...
Tão mesquinhos... Quando brigamos.
Somos tão pouco amigos,
quando quebramos cadeiras e vinis.
Somos tão vilões, tão vis.
Quando lavamos nossa roupa suja,
nossa boca suja, língua afiada!
-Puta! Vagabunda!
-Corno! Escroto!
Porrada!
Somos insignificantes, somos nada!
Quando nada mais temos,
A ganhar ou a perder.
Só nos resta o toque de recolher.
Não há mais nada que a gente possa fazer.
A não ser enfiar o dedo na garganta,
e vomitar!

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Face morta.



Eu vi um lago em teus olhos. Um lago profundo e triste, derramando os pecados do mundo,
por sobre as rugas de uma face morta.
Eu vi em teus olhos, escondido sob pálpebras cansadas, um brilho opaco. De quem um dia,
bebeu a água da vida e deixou o copo vazio antes da hora.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Dois perdidos


Desde quando nos encontramos
na rua por acaso.
Como dois cães que se olham,
se estranham, se cheiram
e não se desgrudam mais.
Desde quando dividimos
o amanhecer e o ocaso,
e as contas nunca pagas
de aluguel, e as pontas de cigarro,
e as memoráveis noites de orgasmos.
Desde quando juntamos nossos trastes.
Nossos pentes de dentes quebrados,
nossos discos arranhados,
e as escovas... as ditas cujas!
Desde então... Somos não mais
que dois perdidos numa cama suja!

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Oração



Desde os tempos dos nossos pais
até os dias de hoje
Temos sido gravemente culpados
pelos holocaustos
pelos homens nascidos em cativeiros
pelos filhos abortados
e setenta e sete cordeiros.
Rasguei a minha túnica
e a capa, a capa, a capa.
Arranquei os cabelos da cabeça
levantei-me da aflição
com as minhas vestes
e o meu manto rasgados!
Caindo aos pedaços
caindo de joelhos.
Estendi a minha mão ao Senhor.
Fazei brilhar aos nossos olhos
A Sua luz!
E dai-nos um pouco de vida
no meio da nossa servidão.
Porque nós somos todos escravos.
Porque presentemente nada mais somos
do que o resto de sobreviventes
de um planeta belo e decadente.

Sonhos Partidos






Meus sonhos acordaram
cansados, com fome...
Desistiram de povoar
minhas noites insones.
Meus sonhos...
Tão antigos...
Companheiros de tantos anos.
Se foram assim!
Da noite pro dia!
Sem esperar o café da manhã.
Mas não faz mal.
Outros sonhos novos virão.
Dividiremos lençóis
e travesseiros molhados.
Seremos fantasmas
nas longas noites de verão.
Depois... Insatisfeitos e cansados,
eles também partirão.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

balas amargas de mel


Aponte sua arma para mim!


Puxe o gatilho,


detone todas as balas.


Eu sei que elas não são de mel,


nem tampouco de hortelã.


Tire do meu ombro esse xale de lã.


Sopre um vento frio em meu pescoço.


Me negue o seu almoço.


Derrame no tapete a sobremesa.


Me dê um tapa com mão de luva,


me esmague no seu dente,


feito um caroço de uva.


Mas sonha comigo...


Todos os sonhos do amanhã!

Já disse não!


Não quero ser o analgésico

para sua dor,

nem o ácido lisérgico

da sua viagem.

Não quero ser o oásis,

não quero ser a miragem.

Nem seu porto seguro,

não quero ser!

Sua válvula de escape...

nem muleta, nem bengala.

Não quero estar na sua sala,

decorando o seu sofá.

Não quero ser sua fama,

ou sua sina,

não quero ser a menina,

dos seus olhos...

nem quero ser

sua escolha errada,

ou sua grande virada.

De você não quero ser nada!

domingo, 2 de setembro de 2007

Versos por acaso


Emendando palavras
costuro versos
com linhas rôtas
em agulhas enferrujadas
aparo as farpas
tesouras às cegas
rasgo os moldes
nem fitas métricas
nem réguas
ou esquadros
alfinetes quebrados
costuro versos
remendo os cacos
nos fundos dos sacos
retalhos mofados
remendo versos
com a linha do acaso!

De mãos dadas


Não fizemos juras de amor,
nem prometemos ao outro
o sol, a lua ou as estrelas.
Não registramos em cartório
nosso encontro,
nem escrevemos em diário
os desencantos e tristezas.
Somos um, somos tantos!
As vezes tão distantes,
as vezes tão juntos.
Dividimos fantasmas e pães,
nos amamos, brigamos.
Mudamos de assunto.
Muitas vezes sonhamos sós,
mas bebemos vinho na mesma taça.
comungamos as mesmas crenças,
pedimos as mesmas graças!
Pagamos nossas promessas.
E ganhamos da vida tantos presentes...
Quem sabe, talvez...
ou com fé em Deus!
caminharemos juntos, eternamente?

sábado, 1 de setembro de 2007

choro


Eu choro pelos meus amigos,

que morreram... Que partiram.

Pelos que estão mortos em vida,

pelos que não tiveram tempo,

pelos que não tiveram guarida.

Choro por mim, que não os tenho!

Pelo tempo que não volta mais.

Choro pelos nossos pais,

que sangraram os corações,

choro pelas nossas mães,

que secaram todas as lágrimas!

Choro por todos os sonhos que sonhamos,

que nunca foram realizados.

Pelos filhos que nasceram,

mas não foram batizados,

Pela bandeira que hasteamos,

e que o vento a rasgou.

Choro pelo que sobrou,

choro por nada!

olhar fugidio


No meio da multidão,

um olhar surgiu.

Olhar fugidio...

Pousou no meu coração,

depois se foi...

Repousar sob pálpebras

entristecidas.

como nuvens


Já não sonhamos tantos sonhos.

Nem buscamos dentro de nós,

santos ou demônios.

Apenas somos...

E passamos.

Como nuvens...

como transeuntes.

Saterês




Chegam trazendo cestos, colares e mel.


Nas caras amarelas, hepática tristeza,


risadas guaranis, risadas de rãs...


Ou guaribas.


Chegam trazendo, uma alegria apática.


Corpos fracos, cansados...


Saem pela ruas, buscam o ópio da cidade!


E o barco que veio, volta.


Outro dia virá de novo!


Trazendo cestos e mel,


levando os vírus daqui!

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Carta ao viajante

A viagem começa quando aportamos nesse planeta, vindos não sei de onde e trazendo na pele um cheiro especial. Um cheiro do cosmos, talvez! O primeiro grito! Um choro... um gemido.
Depois aprendemos a sorrir, falar, andar, correr... Enfim...
a viagem está só começando. Deram-nos à luz! Viajamos pela luz e pela penumbra, viajamos nos sons, nos movimentos, nas cores e formas, nos vultos, na inconsciencia, na ignorancia, na aprendizagem, na sabedoria... Quiçá na consciencia plena! Viajamos! A jornada pode ser longa ou curta, poderemos ter todo o tempo do mundo, ou o tempo pode nos virar as costas. Viajamos por estradas largas, claras, floridas, estreitas, íngremes, asfaltadas ou enlameadas. Atolamos! Capotamos! Pode pintar socorro, ou não! Talvez saiamos ilesos, talvez feridos, ou apenas arranhões! Viajamos! Pelos verdes vales do fim do mundo, ou somente nos fins de semana, ou pelo quintal de casa, ou sentados na varanda. Mesmo assim viajamos. Sós! com amores ou amigos, com fantasmas... Alegres ou tristes, sonhadores, cabisbaixos, desiludidos, angustiados, desenfreados, perpléxos! Com bagagem, com excesso, sem nada! Sem lenço sem documento! De carona, a pé ou de avião. Viajamos! Não importa como, não importa o veículo, nem o percurso, nem as distancias, nem os atrazos, nem os percalços, nem estar dormindo ou acordados. Viajamos! Viajaremos sempre, enquanto houver vida, porque a vida é a viagem e a paisagem é tudo em volta. A morte? talvez seja apenas mais uma conexão!

Filho feliz


Eu joguei terra nos seus sonhos,

joguei água nos castelos de areia,

quebrei sua gaita, seus dados...

sua varinha de condão.

Rasguei seu gibí de super-homem,

e tapei os ouvidos, pra não ouvir seus gritos,

seus gemidos, seus nãos.

Foi tudo em vão!

Eles ecoam tão fortes, dentro de mim,

até hoje!

Eu devorei os seus aniversários!

Soprei as velas do seu bolo!

Usei no seu pescoço, o meu escapulário.

Abri o seu diário, risquei o mês de agosto.

Foi tudo em vão!

Segurei sua mão quando tinha febre,

espremi seus cravos, suas espinhas...

Te dei chá de boldo no primeiro porre.

Sorri feliz quando te vi com uma menina.

Te ensinei tantas coisas....

Que nem eu mesma sabia.

Tantas certezas que eu não tinha.

Quantas respostas que não dei.

Errei! poucas vezes acertei.

Sofri, ainda sofro, não sei!

Por tudo que eu disse.... E o que calei.

Por tudo que fiz, e o que não fiz.

Só queria que existisse um manual,

ensinando mãe, fazer filho feliz!

possui esse caminho um coração?




Nesses caminhos de folhas secas,
pelo chão tão fértil...
Perco meu coração, que cai do peito,
diante dos meus olhos incrédulos,
perco meu coração,
e com ele um chapéu de feltro
e um casaco velho.
nesses caminhos, agora úmidos,
a noite caiu, eu nem me dei conta!
Meu coração geme de frio!
Sujo de terra, chama por mim.
E eu sigo em frente, cega! Surda
Me fazendo de tonta!

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Nossos gritos


Nossos gritos, pra onde vão?
Em que canto do universo,
estarão escondidos?
Terão se calado?
ou se juntado a outros gritos?

Noite urbanas



Na solidão das noites de neon,
escancarei as portas do meu peito!
Gritei palavras, vomitei verbos!
Murmurei versos, ensaiei jeitos.
Na solidão do meu peito...
As sombras da noite roncavam,
e rugiam.
Me fiz boneco de neve,
mas o sol me derreteu,
quando amanheceu o dia.
"E o inverno finalmente venha..."

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Eu quero flores


Eu quero flores nos meus vasos sanguíneos
e quadros de Van Gogh nas paredes das artérias
quero energia convertida em matéria
e baguá na porta do meu peito
eu quero o rio, a margem e o leito
um imenso ofurô dentro de mim
quero tatame pra fazer o tai chi
e a música de Shiva em meus ouvidos
eu quero os dias que virão e os dias idos
inseridos na mandala em minhas mãos
quero viver o caos e a criação
e entender os mistérios do universo
eu quero a capa, eu quero o verso
quero a sequência do céu anterior
quero a imensa mão do Criador
fazendo um reiki sobre a minha cabeça
eu quero que tudo isso aconteça...
E que um dia a lua teça,
um manto prata sobre mim!